
Tudo começou com as bactérias. Décadas atrás, os microbiologistas notaram que certos organismos unicelulares guardavam em seu DNA fragmentos de vírus que os haviam atacado no passado, como um arquivo criminal molecular. Esse sistema de defesa natural, conhecido como CRISPR, permaneceu como curiosidade científica até 2012, quando as pesquisadoras Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna demonstraram que poderia se tornar uma ferramenta de edição genética de precisão surpreendente. Combinado com a enzima Cas9, o mecanismo funciona como uma tesoura molecular capaz de cortar o DNA em um ponto exato, guiada por uma molécula de RNA projetada sob medida. A partir desse corte, os cientistas podem eliminar, corrigir ou inserir sequências genéticas. A promessa era enorme: curar doenças hereditárias desde sua raiz. Mas quando essa mesma ferramenta é direcionada a um embrião humano em suas primeiras horas de vida, o panorama muda radicalmente, porque qualquer modificação na linha germinativa será transmitida a todas as gerações futuras.
O ponto de ruptura chegou em novembro de 2018, quando o biofísico chinês He Jiankui anunciou ao mundo que havia editado geneticamente embriões humanos que resultaram no nascimento de duas meninas gêmeas, supostamente resistentes ao HIV. A comunidade científica internacional reagiu com uma mistura de horror e condenação. Não se tratava apenas de que o procedimento fosse tecnicamente prematuro — com riscos de edições fora do alvo que poderiam provocar mutações imprevistas —, mas de que cruzava uma fronteira ética que a maioria dos países nem sequer havia terminado de traçar em suas legislações. He Jiankui acabou na prisão, mas a pergunta que deixou no ar continua sem resposta definitiva: sob quais circunstâncias, se houver alguma, seria aceitável modificar o genoma de um ser humano antes de nascer?
Na América Latina, essa pergunta ressoa com matizes próprios. A região não registra até agora tentativas de edição genética em embriões humanos, mas o debate já está sobre a mesa. Na Colômbia, a pesquisadora AM González Angulo publicou em 2021 uma análise detalhada através da SciELO Colômbia na qual examina as limitações técnicas e éticas de aplicar CRISPR-Cas9 na linha germinativa, e propõe a criação de comitês multidisciplinares de vigilância que incluam não apenas cientistas, mas também bioeticistas, juristas e representantes da sociedade civil. Seu trabalho aponta que o país carece de regulamentação específica para essa tecnologia e que instituições como o Invima precisariam desenvolver diretrizes claras antes que qualquer pesquisa clínica avance. Mais recentemente, em 2025, JAM Angarita, da Universidade de Ciências Ambientais e Aplicadas (UDCA), também na Colômbia, mapeou os desafios e avanços do CRISPR-Cas9 no contexto regional.
No México, a Academia Mexicana de Ciências (AMC) trabalha na atualização da normatividade sobre o genoma humano para incorporar as realidades que a edição genética apresenta, embora também não se relatem aplicações clínicas em embriões. Chile, por sua vez, tomou um caminho mais cauteloso: a Biblioteca do Congresso Nacional elaborou um relatório comparativo que avalia marcos regulatórios restritivos de outros países como referência para proteger o genoma humano em território chileno. Este mosaico regulatório reflete uma realidade preocupante: o baixo custo da tecnologia CRISPR facilita que laboratórios com recursos modestos possam experimentar com ela, mas a ausência de marcos legais robustos abre a porta para pesquisas sem supervisão adequada.
O dilema de fundo não é apenas técnico. Por trás da edição de embriões humanos esconde-se o fantasma dos "bebês de design", a possibilidade de que essa ferramenta deixe de ser usada para eliminar doenças devastadoras e comece a ser empregada para selecionar características como altura, cor dos olhos ou capacidade cognitiva. Em uma região marcada por profundas desigualdades, o acesso diferenciado a essas tecnologias poderia criar uma nova forma de brecha social, genética desta vez. Enquanto isso, avanços globais como a edição de bases, uma versão mais refinada do CRISPR que modifica letras individuais do DNA sem cortar a dupla hélice, prometem maior precisão, mas não resolvem o dilema fundamental. A América Latina tem diante de si uma janela estreita para construir consensos antes que a tecnologia, como costuma acontecer, se adiante às leis e às conversas que ainda devemos ter como sociedade.